Saudação

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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O circo de carnavais - e, canaviais



Por George W de B Cavalcanti


Diante dos resultados do primeiro turno das eleições do corrente ano tenho motivos de sobra para defender a tese de que, continuo a ser pobre desprestigiado e anônimo – apesar de pós-graduado, alfabetizado digital e com serviços prestados ao interesse público – porque sou um cidadão do nordeste brasileiro e precipuamente por residir no interior do estado de Alagoas.

A título de ilustração vamos abordar o acontecido nestas paragens nesta primeira etapa eleitoral geral do ano em curso. Onde, em todos os níveis da disputa por votos na terra do 'sururú-de-capote', as lideranças e quase totalidade dos candidatos peessedebistas - seja no horário eleitoral ou fora dele - escondeu o seu emérito pleiteante à presidência da república.

Com raríssimas exceções o nome do economista, administrador público competente e político ficha limpa experiente foi trabalhado eleitoralmente. José Serra ficou de fora; seu nome, sua história e sua imagem; para desespero do seu eleitor. Seus correligionários da “terra dos marechais” – dada circunstancial popularidade da adversária – foram de um oportunismo deprimente e de uma tibieza inominável.

Para completar a grande função no picadeiro eleitoral nacional, assistimos às recorrentes apresentações das aberrações jurídicas eleitorais e dos ilusionistas político-partidário. Estes, a tirar da cartola partidária suspeitíssimos 'puxadores de votos' ou "poca-urnas', como se diz aquí no nordeste. Foi um esvoaçar de candidato-bandido, candidato-palhaço, e do mais sagaz: o candidato bandido-palhaço.

Isto sem falar dos trapezistas e malabaristas da legalidade, sempre muito bem treinados por seus marqueteiros políticos para causar frisson, ao rufar dos tambores da grande mídia nacional. Todos sempre sorridentes para as câmeras e a fazer suas perigosas piruetas eleitoreiras sem medo de ser feliz. Já que sempre amparados pela grande rede da nossa legislação eleitoral.

Segurança essa que nunca falta, porque o vasto apetrecho de amparo oferece uma malha aberta, e com estrutura adequadamente elástica. O suficiente para estender-se em conforto para astros e estrelas não-alados em seus mais ousados voos. Até mesmo para os de maior sobrepeso por comilanças, na queda livre do sair de cena no apagar das luzes do picadeiro.

Mas, não poderia concluir este sem atender a pergunta que a esta altura certamente está pendente na cabeça do ilustre leitor. E, quanto aos outros interessantes e indefectíveis números artísticos habituais sob a grande lona; o ‘engolidor de espada’, o 'engolidor de fogo', e especialmente, o ‘globo da morte’ - não tem?

Claro que tem. O que acontece é que, sob a lona verde e amarela da nossa democracia representativa – ou seria em todas elas? – tais arriscados protagonistas são recrutados pelo apresentador do espetáculo. Sim, mas sempre da turma da plateia boquiaberta, e, 'compulsoriamente convidados'. Ou seja, no caso, dentre a maioria do eleitorado: nós comuns cidadãos brasileiros.

Concluo deixando claro que o mestre de cerimônias da temporada é o exótico 'Mister Esseteefe', exímio nos truques com a 'Lei da Ficha Limpa' tanto quanto com a lei da gravidade. E, sempre solícito ao 'Gerente Geral para Carnavalizações' cuja última alegoria é: 'O Trem Bala em Desafio à Engenharia e ao Contribuinte'; enquanto por trás da cortina agoniza toda a logística do 'gran circo' de carnavais e canaviais.



domingo, 8 de fevereiro de 2009

Introdução à botica, episódio 2 – ‘circenses’, 2ª parte

Por George W B Cavalcanti


Havia alguns dias uma vistosa e barulhenta 'fobica' – de lustrosos bojos e opulentos faróis – equipada com enormes bocas de ‘auto-falante’ anunciava por toda a cidade e vizinhanças a chegada ‘para breve’ – nunca em uma data exata porque as estradas eram péssimas – de um famoso grande circo com atrações ‘estrangeiras’ e até, pasmem, feras africanas e seus destemidos domadores. A expectativa era geral e o vento morno dos trópicos colaborava, espalhando um frisson na criançada que corria atrás da geringonça antegozando as emoções do picadeiro. Mas, em meio às correrias e pinotes, se mantinham em estado de alerta para com quaisquer figuras que fugissem a tipologia nativa ou tivesse algum aspecto alienígena.

Coincidentemente, o meu pai, minha mãe e o meu irmão mais velho formavam uma pequena trupe que à brejeira observação apresentavam um padrão incomum e com certeza estrangeiro e artístico –; a avaliação inicial era: só podiam ser embaixadores do anunciado ‘gran circo' e, não era para menos. Até porque o menino chegara vestindo calças curtas de legítimo tropical inglês ‘risca de giz’, conjunto de suspensórios e cinturão em couro legítimo, sapatos bicolores, meias de seda, camisa de Jersey e cabelo à ‘Jacques Dennis’ com seu característico topete. Parecia o típico pequeno lord inglês dos filmes em branco e preto que assistiam no abafado cinema local –; quando havia suficiente energia elétrica da problemática unidade geradora mantida pela prefeitura.

O meu pai então um bem apessoado descendente de italianos e portugueses do ‘sefarad’ ibérico apresentava um físico avantajado para a estatura, uma vez que durante bastante tempo se dedicara ao fisiculturismo pelo método ‘Charles Atlas’ e com ‘Remosan’ – este, um equipamento de remo no seco –, o que lhe conferira notável robustez e definição muscular. Aquela tamanha aparência era encimada por uma vasta e sedosa cabeleira, cuidadosamente cultivada com o uso regular do tônico capilar ‘Vitallis’ das propagandas do rádio. Resultando que, compararam os pulsos dele às partes mais grossas do antebraço de um homem comum.

Já a esposa, ou seja, a minha mãe, no fulgor dos seus vinte e poucos anos, era uma bela flor que desabrochara toda sua graciosidade ‘sefaradim’ herdada de suas ancestrais ibéricas –; e, portanto, apresentava uma tez moreno-clara uniforme e acetinada. Sua fisionomia delicada de sorriso perfeito e recatado – idêntico aos ‘reclames de pasta de dente’ – era emoldurada por fartas madeixas –; e, a ressaltar-lhe o lânguido olhar suas bem delineadas sobrancelhas e cílios negros “como as asas da graúna”. Além do mais, a jovem senhora era dona de um torneado corpinho capaz de dar inveja a manequim de modista.

No pequeno hotel logo após a chegada dos incomuns hóspedes as serviçais da casa já se esgueiravam entre cochichos, mal disfarçando os seus olhares esbugalhados de curiosidade face ao exótico núcleo familiar oriundo da fascinante cidade de Recife –; então a mais promissora capital da região e terceira cidade mais populosa do país. O trio notável se dividia em atenções e a curiosidades para com a cidade que consideravam a nova seara para seus próximos anos. Assim, trataram de retirar a poeira e o enfado com um bom banho e, juntos, saíram ao centro urbano para um périplo de reconhecimento e adaptação.

Não foi outra a postura senão cumprimentar gentilmente os passantes a grosso, varejo e a granel e, não deu outra... Olham uns daqui, chamam umas dali, correm outros acolá -; e, não demorou muito, a noticia das exóticas presenças ‘no comércio’ correu meio mundo com rapidez e resultados hilários, para dizer o mínimo. Vendedoras das lojas correram para as portas – seguidas pelas patroas –, servidores públicos encerraram mais cedo os expedientes. E, formavam aglomerações curiosas com uma dissimulação acintosamente indiscreta – todos ansiosos pela primazia em ver os supostos integrantes da tão aguardada grande companhia circense nunca dantes vista por aquelas plagas.

O clima reinante era de puro e criativo devaneio coletivo que, naquele tempo - num misto de alienação e ingenuidade -, a imaginação interiorana ainda proporcionava.


(continua proximamente)

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