Saudação

Olá! Este é um espaço de escrita criativa com um toque de humor, e expressão da minha vontade de me aproximar do poder revelador das palavras. Testemunho do meu envolvimento com a palavra com arte, e um jeito de dar vida à cultura que armazeno. Esta página é acessível (no modelo básico) também por dispositivo móvel. Esteja à vontade.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O Náufrago

Por George W B Cavalcanti


A aeronave dos meus sonhos cai sob a ação de uma inclemente tempestade,
Num encapelado ambiente preservo a encomenda e busco a minha salvação,
Determino-me a cumprir a missão, mesmo que uma feroz procela me retarde;
Sou agente postal e levo ao destinatário a remessa preciosa que tenho na mão.

Açoita-me a chuva, cobrem-me as ondas e, pareço nadar e lutar em vão,
Mas, determinado eu sou e, sempre, com fé enfrento toda a adversidade,
No ar, no fogo, na água e na terra, pulsa em mim um responsável coração;
Sucumbo, volto à tona e recobro a consciência, o dever, o amor e a saudade.

Percebo-me vivo em praia deserta e, enfim a sós, eu e a minha própria verdade,
Caminhamos, contornamos e constatamos; somos ilha em outra ilha na imensidão;
SOS na areia, mensagem em garrafa e sinais de fumaça; sobrevivência em prioridade.

Lanço-me ao largo numa virtual flutuação e, aguardo socorro numa eventualidade,
Navego um oceano, fico à deriva e, alguém nos resgata; a mim, ao presente e à gratidão;
Para ensejar-nos então o final feliz, no precioso encontro da esperança com a solidariedade.


União dos Palmares - AL, 19 de julho de 2008.

Uma irmã para a Lei Seca

Por George W B Cavalcanti


Parece-me desesperadoramente premente que este nosso país renuncie a uma espécie de contracultura encruada e renitente que, ao invés de ser debelada alastra-se cinicamente. Ampliada que é pela acessibilidade cada vez maior aos recursos tecnológicos e à mídia desregrada e vulgar; essa que age como arauto-mor da falta de ética e da desconexão com a moral e com as leis.

Urge-nos revisitar os valores individuais e coletivos e fazermos um exame de consciência; batermos em nosso próprio peito e dizermos: “mea culpa, mea culpa, mea máxima culpa”. Porque o que se torna evidente – para escândalo “intramuros” e escárnio “extramuros” – é que, face ao crescimento do país, agiganta-se a nossa imagem de uma nação que não cumpre o que determina para si mesma. Dissemina-se assim – para desespero do cidadão ético –, a imagem de um povo corrupto e não-confiável.

Porque a despeito de todo o aporte econômico e do desenvolvimento científico por aqui existente, insiste-se na coletivização do não-valor e dos vícios, da “esperteza à moda da casa”. São os endêmicos ganhos a qualquer custo, á base da antiga e mumifica “lei de Gerson”, ou seja: “o negócio é levar vantagem em tudo, certo?” –, e, isto é um ‘rondó’ de erros continuados. É um desejo compulsivo e imbecilizante pela orgia pecuniária. Uma espécie de embriaguez que nos causa uma inépcia civilizacional notoriamente acaçapante.

Então o cidadão trabalhador honesto e contribuinte é quem agüenta a “ressaca”, decorrente do nosso cenário político, com seu desfile interminável de governantes e autoridades que vivem a “babar no colarinho” por dinheiro e, com um gosto todo especial senão pelo ilegal, pelo ilícito. Mas, em tempo, não esqueçamos a máxima axiomática: “O político é o povo”; e o mau político é a nossa ‘cachaça’ de terríveis ressacas e característico mau cheiro.

Convenhamos, somos infelizmente e ainda um povo de caminhar trôpego no cenário da vida e, como bêbado, a tropeçar em seu próprio vômito. Concluindo ocorre-me lembrar-me inevitavelmente da cantoria de um “forró” por aqui executado à exaustão – desses atualmente feitos sob encomenda para o “gosto popular” – e, cujo refrão exalta a seguinte façanha: “beber, cair e levantar”... Pode até se levantar, mas o mau cheiro e a má fama já irão longe...

Prudentemente criou-se a ‘Lei Seca’ – de inquestionáveis positivos resultados – mas, parece-me urgente também a criação de uma outra; seria uma ‘Lei-Engov’. Quem sabe esta venha também acompanhada do crivo de respectiva maquineta - um 'corruptômetro', sugiro - específica para flagrar políticos infratores e aplicação de pertinentes pesadas multas, significativas perdas de 'pontos' e, até, sumária cassação da manjada 'habilitação' para dirigir o nosso destino.

Enfim, com um pouco de imaginação podemos antever uma drástica redução nos índices de acidentes políticos, de mutilação da dignidade e de mortalidade da cidadania em nosso país.


União dos Palmares - AL, 18 de julho de 2008.

Flor de Luz

Por George W B Cavalcanti


O Logos Universal semeou,
Extensão de Si em flores astrais;
Beleza viva para o Seu deleite,
Em infinitos planos dimensionais.

O Pleno Poder projetou-Se em criaturas,
Distribuídas em muitos níveis, graduais;
Na sopa cósmica, caldo primacial de enzimas,
Senso ético e pulsar estético; em seres ancestrais.

A Eternidade imprimiu em luz o desenho inteligente,
Sem ter principio e nem fim; o nosso rascunho original;
Tudo que foi desde sempre; para ser Seu fruto e semente.

O Amor concebeu Seus recipientes, conscientes e especiais,
Com tamanha expressão de beleza e aromas que a todos apraz;
Pétalas, buquês, canteiros e jardins; povoando as rotas siderais.


União dos Palmares, 17 de julho de 2008.

Asas machucadas

Por George W B Cavalcanti


Já foi dito que: "Amigos são anjos que nos levantam para voarmos quando as nossas asas estão machucadas". Mas, e se esses anjos viessem a ter, também, as suas asas machucadas, como é que ficaríamos?

Ora, sem seus elevados e celestiais serviços ficamos mais à mercê de pessoas que gostam de machucar anjos; esta é a resposta mais pronta. Sim porque a toda hora conhecemos pessoas – e são tantas... -, que são verdadeiras ‘seriais quebradoras' de asas angelicais terreais e, se possível lhes fora, das celestiais também; pecado dos mais nefandos e nefastos, pouco comentado e, menos ainda, combatido.

Uma verdadeira calamidade porque, sem voar anjos não protegem, não tocam os corações, não podem ajudar o amor, enfim, não podem ser anjos. E, sermos anjos - nem que seja por alguns momentos ao dia... - é consubstanciar na carne a inefabilidade do sublime e do divino; e, como o mundo está carente de angelicalidade!

Refiro-me aqui a uma conduta angelical sem pieguismos, afetações ou o manjadíssimo e suspeito semblante permanentemente cândido. Enfoco a verdadeira ação efetiva de cuidar do próximo e de curarmo-nos mutuamente nossas asas machucadas. Quando, enfim, alcançamos o mérito e profundo prazer em contemplar o outro na culminância do milagre.

O momento pleno de êxtase sublime e poético, que é ver o próximo a alçar vôo rumo à realização dos seus mais justos, queridos e acalentados sonhos. E, porque anjo é um ser de amor essencialmente amado e, portanto, inerentemente indispensável; à crença, ao devaneio, ao sonho... Mas, sempre ao nosso lado.


União dos Palmares - AL, 16 de julho de 2008.

Colchões, 'quentinhas' e, "verdinhas"

Por George W B Cavalcanti


Acredito que avançaremos pouco na solução dos grandes males que afligem a sociedade brasileira enquanto não considerarmos essas questões em suas raizes antropológicas.

Abordagem esta que, a meu ver, logo de início suscita o seguinte fato: que somos basicamente síntese e resultado de três (3) povos extremamente díspares - em espaço e tempo - cultural e tecnologicamente: o branco europeu corrido, o amerindio invadido e o africano escravizado. Os quais, por uma imposição histórica, viram-se na contingência de amalgamar-se em uma nova nacionalidade; ou seja, em nós, brasileiros.

Para que essa extraordinária empreitada desse certo, em nossos primórdios usou-se e abusou-se de três (3) mazelas, a saber: excessiva tolerância, excessiva permissividade - e promiscuidade - e frouxidão com as leis; aspectos estes necessários e até imprescindíveis àquela situação.

No entanto, com o passar do tempo tornaram-se mazelas e que continuamos a cultivar; embora de há muito não nos sirvam senão para nossa vergonha e prejuízos nos mais variados aspectos da nossa conduta e da imagem nacional, aqui e alhures.
Estes são alguns dos nossos cacoetes comportamentais herdados e que estão na raiz do nosso famigerado 'jeitinho brasileiro'; gênese das distorções de conduta e descaminhos que infelicitam nossa gente e retardam o nosso desenvolvimento.

Temos agido até agora como eternos bombeiros da ética e da moral, correndo daqui para lá para apagar a uma interminável sucessão de incêndios em forma de escândalos. Mas quase nada fazemos ou consigamos fazer para evitarmos que aconteçam de maneira tão acintosa e alarmante. E, o que é pior; se avolumam em gênero, número e intensidade e, com (in) conseqüentes estragos cada vez maiores.
Entendo seja o caso de se perguntar – mas tenho a impressão que neste solo pátrio, ainda, não muitos se dão ao trabalho de se fazer - : por que sob avalanchas de más notícias não se consegue soluções verdadeiramente eficientes e eficazes e, portanto, efetivas - como alcançado em outros países?

Como sugestão para a resposta, coloco, à reflexão, a seguinte questão: no Brasil quem ganha mais dinheiro com o ilícito, com a contravenção e o crime, os bandidos ou os 'mocinhos '?

Caso, ainda, você não esteja seguro da resposta, te dou uma 'deixa': analise isto no âmbito macro-econômico e perceba quanta gente nesse ‘rolo’ todo está ganhando muita ‘grana’.

Sim, é isso mesmo; com cargos, funções e atividades afins como: noticiar, investigar, prender, acusar, defender, julgar, apenar, construir presídios, fornecer suporte prisional-carcerário - ‘quentinhas’ e colchões inclusos -, serviços funerários e, de soltar bandidos neste país; é muito dinheiro envolvido nesse estranho viés de 'geração de emprego e renda', não é mesmo?

Agora se pergunte: em que medida estamos interessados em soluções eficientes e eficazes e, portanto, efetivas a este respeito, por exemplo?

Pensou melhor? 'Caiu a ficha?'

Pois bem!... E então?...

É... Parece-me que consciêntização e tomada de atitude já são um bom começo.


União dos Palmares - AL, 15 de julho de 2008.

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