Saudação

Olá! Este é um espaço de escrita criativa com um toque de humor, e expressão da minha vontade de me aproximar do poder revelador das palavras. Testemunho do meu envolvimento com a palavra com arte, e um jeito de dar vida à cultura que armazeno. Esta página é acessível (no modelo básico) também por dispositivo móvel. Esteja à vontade.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Café com nuvens

Por George W B Cavalcanti


N
a tarde anterior, enquanto digitava um novo ‘post’, ocorria lá fora um início de tempestade outonal com o característico intermitente ressoar de trovões. E, durante aqueles momentos de suspense climático pensei em, até cautelarmente, desligar o equipamento. Mas, a esperada seqüência de precipitação pluviométrica torrencial não ocorreu e, consegui lograr êxito na tarefa. Ou seja ‘dar à luz’ mais um rebento literário –; uma vez que cada novo texto produzido, equivale a um novo filho que nasce. Sim, porque a o intelecto com a arte criam novos entes significativos que vão aos poucos ganhando vida, personalidade, beleza e capacidade de diálogo com outras mentes e suas teses.

No entanto, apesar dos assombros invernosos precedentes, a noite gestou um belo amanhecer com um tempo bom e estável com leves conotações de fim de verão, típicas do período –; mas nada que o aromático café que eu sorvia com pão integral e queijo branco não pudesse compensar. E, naquele momento em que rotineiramente permaneço em um silêncio quase contrito, percebi sobre a antiga mesa de madeira sucupira, o convite da luminosidade matinal promissora. Cenário aquele favorável tanto para a atividade ao ar livre e para o lazer quanto à contemplação e reflexão –; mas, o enlevo ofertado me fez escolher a segunda alternativa, como descrevo a seguir.

Era o cenário costumeiro de um domingo bucólico de pequena cidade interiorana, embora sua comunidade apresentasse especial agitação –; com a cacofonia de seus automóveis equipados com os tais ‘som bobo’ em alto volume e, a impor o gosto musical duvidoso dos condutores aos nossos ouvidos indefesos. E, também por um simplório ‘carro-de-som’ que, propagandeando, conclamava a ‘família palmarina’ e a comunidade em geral para, logo mais à tarde, participarem da tradicional e folclórica ‘procissão do mastro’. Evento aquele que, resumidamente, constitui-se de um concorrido périplo de fiéis devotos em desembalada carreira ao conduzir às costas, até a praça da igreja matriz, o longo madeiro no qual posteriormente fariam desfraldar a bandeira com a efígie da santa.

Com algum esforço voltei a concentra-me na energia especial da refeição e apenas ouvia ao longe o repicar de um plangente sino a confessar que ele era o mesmo, tanto quando convidava para a celebração quanto quando anunciava o sono dos que neste mundo já não mais celebravam –; meus olhos marejaram. Foi quando ouvi o cantar da plumária e saltitante ‘garricha’ – de tantas recordações da minha infância – com sua melodia curta e simples que, naquele instante parecia dizer-me: “Hei! Escuta, bem sabes que sou pequenina, frágil, marrom e ocre, bico fino e curvo, nada vistosa e, que só me alimento de pequenos insetos. E mais, que para mim não existem domingos, 'dias santos' ou feriados, pois tenho que prover o meu sustento e o dos meus pequeninos, quando vocês nos permitem. Contudo, estou sempre por aí, pelas frestas das vossas moradias a colher insetos, a livrá-los de pragas e a ajudar a equilibrar o meio-ambiente”.

Na seqüência completei mentalmente o que me parecia dizer o passarinho, reconhecendo como e o quanto ele – com toda a sua simplicidade – celebrara esplendidamente à vida. Naquele instante, levantando-me, com alguns passos alcancei o alpendre da nossa casa, onde me aguardava a minha ampla e confortável rede tecida em puro algodão. E, nela embalado, o meu campo de visão estava tomado pelo firmamento e, nele, outro não era o cenário senão o das suas muitas nuvens estáveis e serenas, naquele momento que me pareceu eterno. Lá estavam nuvens como se fossem grandes rebanhos de ovelhas apascentadas e, cujas alvíssimas lãs fora ali coladas. Suspensas naquele imenso lençol de um azul puríssimo banhado de luz e, generosamente estendido sobre todos nós.

Foi um momento daqueles de nada pedir e tudo agradecer –; até porque todo transitório permanece por misericórdia e concessão do Eterno.

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