Saudação

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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Ao Aveludar das Pedras



Por George W. de B. Cavalcanti*


As pedras rolam, à exceção daquelas que criam lodo até virar sedimento por nunca mudar de posição ou lugar. Estáticas, a jamais experimentar outro terreno, outra interação, outro encaixe e outra possibilidade. Fora de leitos ou de rotas, são, por assim dizer, pedras mortas.

Se mantem no meio do caminho como objeto qualquer que nunca transpõe e sempre é transposto, não fora os movimentos de rotação e translação do próprio planeta. Este, grande pedra fragmentada, mas em movimento que une o seu entremeado de magma e águas.

Outras, que rolam e que saem de seu lugar cujos motivos não vamos aqui questionar, porque em dimensão cosmológica, são incontáveis. A realidade é que tombam e tornam a tombar, a chocar-se e a abrasar. Às vezes portentosamente, retumbantes como se fora sólidos trovões.

Estar à mercê da inércia simplesmente é oferecer-se ao musgo, ao parasitismo como um seu passivo lastro. Não ser ator de eventos é não ter histórico de movimento, apenas o estar geológico. O que reduz, em muito, a chance se se assemelhar à matriz terreal esférica.

Até onde conheço os corpos celestes, aqueles que são significativos de órbita estável são esféricos ou tendem a sê-lo. E, assim escrevo para ilustrar como o imobilismo é bisonho, semelhantemente em nós humanos também minerais e, ás vezes, pétreos ao ocaso.

Pelo que, no que me diz respeito, ocorre-me parafrasear o pensador andino e dizer: confesso que rolei (vivi). E, o faço a tempo suficiente para dizer sem sombra de dúvida que sempre lutei para que não parasitassem sobre mim, como se fora eu uma alegoria de lodo do lago.

Vezei sobre montes e vales, areias, pântanos e cascalhos tantos. Agora, invariavelmente exibo os resultados, e sinto-me gratificado. Sou um ser que rolou até sobre estiletes os mais pontiagudos; pedras lascadas, ouriços do mar travestidos de gente em couraça.

Quedas e atritos tantos me aguçaram o coração e a mente, quase sempre à revelia; ao acaso que de chofre sai da densa bruma do imponderável. Ocasional oposição única, desígnio, destino, sei lá; só sei que quando passa deixa o seu nome gravado: o inescapável.

Reconheço nisto um tanto da minha própria história; testemunho vivo que sou do arrasto. O suficiente para que a esta altura do meu tempo já me sinta um seixo. Liso, livre e escorregadio, que é o aveludar-se da pedra. Modo como essa vida no diz que a polidez é ganho.

Que, ao menos de agora em diante, os meus iguais me permitam entre eles o meu lugar. Quedar-me atentamente e sem criar lodo, porque a o oferecer aos peixes como pasto. Ser outro seixo em leito de córrego cristalino, a sentir como gentil carícia o polir de suas águas perenes.




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